A professora que mudou minha vida!
Aos sete anos um fato mudaria toda a história da minha vida.
Sempre fui uma criança dinâmica, alegre com muitos amigos.
Por ser muito solicitada naquela manhã em que cantávamos o hino nacional tradicionalmente em fila com as mãos enfileiradas uns nas costas dos outros, percebi que lá ao fundo da fila uma amiga me chamava insistentemente.
Solícita, como sempre, olhei para trás e nisso para minha infelicidade a fila andou. Dona Nair (era esse o nome daquela mulher que se dizia professora) começou a sessão de insultos:
- "Sua PAMONHA, incapaz, não vê que atrapalhou toda a fila, afinal você não serve prá nada mesmo, vai Pamonha, anda!"
Senti neste instante meu rostinho corar e toda a minha alegria desmoronar. Os amigos não perderam a "Grande" oportunidade de zoar da Pamonha e assim, começa o meu apelido que perdurou até o ano seguinte quando outro fato ajudou para que mais uma vez me sentisse inferior a todos os outros alunos.
Meus pais tinham uma condição de vida muito difícil e talvez por isso, minha mãe colocava como merenda todos os dias uma goiaba que retirava do nosso quintal.
E é lógico não passou despercebido pelos meus amiguinhos que resolveram me apelidar de "Goiabinha"! Poxa, já não bastava ser chamada de Pamonha e agora de Goiabinha?
Teria outros recursos caso "aquela mulher" que se dizia professora tivesse tido a capacidade de reverter à situação, no entanto, deixou que todos me humilhassem e em alguns instantes rir de mim.
Aquela criança feliz e bem-humorada com o passar dos anos foi dando lugar a uma garotinha medrosa, sem vontade de estudar muito menos de fazer amigos.
Isolei-me completamente nos dois anos seguintes, até que na quarta série um anjo iluminou meu caminho.
Outro início de ano letivo, rezava para que aquela mulher não lecionasse mais para nós e que jamais pudesse novamente cruzar com meu caminho.
Minhas orações foram atendidas. Naquele dia lembro-me que quando aquele anjo entrou na sala meu coração estava aos pulos. Ela era linda, com os cabelos cacheados mais brilhosos que havia presenciado e os olhos verdes intensos combinando com uma boca volumosa e um batom de um rosa que ornava perfeitamente com seu rosto corado e cheio de vida.
Ela parecia muito com a cantora Vanderlea, só que milhões de vezes mais linda, chamava-se dona Anastácia e tinha um sorriso franco e fácil.
Amá-la foi fácil, fácil. Os alunos estavam encantados e todos aumentaram o desempenho e as notas. Um certo dia, dona Anastácia pediu para que eu não saísse da sala que gostaria de conversar comigo. Os amigos olharam e iniciaram então a sessão tortura: Pamonhaaaa, Goiabinha vai ficar de castigooooooooo!
A professora olhou firmemente para eles e disse:
- Ela tem nome e a Regina ficará aqui porque é inteligente e preciso de sua ajuda. Quanto a vocês podem ir agora, o assunto é confidencial e importantíssimo.
Naquele instante senti-me a pessoa mais importante do mundo, mais nada tinha importância, somente eu e minha professora, fosse o que fosse eu já estava vingada.
Dona Anastácia olhou-me docemente e perguntou o que acontecia comigo já que me acompanhava à distância em outros anos e sabia que eu havia sido muito alegre e espontânea, onde havia perdido aquela Regina tão diferente da de hoje?
Resolvi abrir-me e contei-lhe dos apelidos e da dificuldade que tinha em aceitar ser Pamonha e mais pobre que todos os outros alunos que levavam lanches maravilhosos e sempre tinham dinheiro para os doces da saída.
- Minha querida, diga-me uma coisa, a goiaba tem um cheiro maravilhoso, certo? A sua cor é forte e seu cheiro incomparável, além de tudo é uma fruta saborosa e muito nutritiva. Da próxima vez que alguém lhe chamar de goiabinha diga que é com muito orgulho, já que a goiaba é forte, gostosa, bonita e muito importante para todos nós.
Achei incrível ser goiabinha e passei então a entender que aquele apelido tinha lá o seu charme.
Quando fui desfilando sobre a importância de ser goiabinha o apelido ficou sem sentido para a turma e passaram a ignorá-lo.
No entanto, após a conversa com a Dona Anastácia resolvi voltar a ser "eu" mesma e minha alegria, espontaneidade e vitalidade estavam de volta.
Minha vida tornou a ter sentido e todos os meus amiguinhos e professores passaram a me respeitar.
Hoje, agradeço a Dona Anastácia e procuro ser para os meus alunos a mesma professora que me incentivou a tornar alunos pessoas cada dia melhores. Ouço com freqüência o mesmo agradecimento e sinto que minha missão de vida está somente começando.
Por incrível que pareça minha alimentação inclui quase tudo, menos "milho", detesto em qualquer situação, principalmente PAMONHA! Devo isso a aquela que se "dizia" professora, dona Nair.
Parabéns a todas as donas Anastácias e o meu sincero desejo que as Donas Nair estejam cientes do poder que cada professor possui na vida de seus alunos.
Que esta importante data seja para nós educadores um presente para a construção de um mundo melhor! |